ALUNOS DO CAMI SÃO DIPLOMADOS EM FESTA LATINA

Dermi Azevedo – Editor e Jornalista Responsável

Com a apresentação de vários grupos musicais latino-americanos e, sobretudo, com muita alegria e participação popular, o CAMI (Centro de Apoio e Pastoral do Migrante e Refugiados), realizou ontem, em São Paulo, a festa da entrega de certificados a cerca de 170 alunos dos seus cursos profissionalizantes. Esta ONG volta-se para a promoção da dignidade humana dos homens e mulheres latino americanos que vivem em São Paulo. Participou da festa o bispo anglicano da Diocese de São Paulo (DASP), d. Flávio Irala que incentivou os migrantes, os imigrantes e refugiados a aprofundarem a sua vivência comunitária ” sempre a serviço da causa da paz e da justiça social”. Em seu discurso de abertura, o coordenador do CAMI, Roque Patussi, destacou a importância das atividades, como a que foi realizada ontem,  ”uma oportunidade excepcional para o resgate do potencial criativo de todos os irmãos e irmãs da América Latina e do Caribe”.
De fato, a festa teve um caráter intercontinental, apresentando São Paulo e o Brasil como territórios de acolhida e de atenção para todos os migrantes, imigrantes e refugiados. Quando foi feita, na festa, a chamada dos participantes, a maioria é formada por bolivianos, seguindo-se os peruanos, os chilenos, os paraguaios, os venezuelanos, os uruguaios, os argentinos e os haitianos. Esse grupo é o que mais tem aumentado nos anos recentes.
Os cursos oferecidos pelo CAMI incluem informática, moda, português, música além de direitos humanos e cidadania. Em 13 de agosto próximo, serão abertas as inscrições para os cursos do segundo semestre.

Violência

Um fato inusitado, embora já tenha tornado-se rotineiro, aconteceu logo cedo na sede do CAMI na Alameda Nothmann, esquina com a Rio Branco, no centro histórico de São Paulo: Ladrões invadiram a sede para roubar fio de cobre, trata-se de um produto bastante valorizado. Foi necessário que o coordenador administrativo do CAMI, Nelson Bison e Roque Patussi entrassem em contato com a Polícia Militar, que emprestou alguns equipamentos elétricos para a realização do show musical e da diplomação.

Eventos

Outros eventos serão também promovidos e terão a parceria com CAMI: em 27 de agosto próximo na Praça da Kantuta, Canindé/SP, acontecerá o festival de música e poesia. Vários grupos latino americanos e caribenhos farão apresentações nesse festival. Além disso, de agosto a dezembro próximo o CAMI fará parceria com a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, IEAB, e com o Núcleo Maximiliano Kolbe- NMK, para a realização do VI Curso de Introdução aos Direitos Humanos, e a partir de Agosto, o CAMI também promoverá o curso sobre o Teatro do Oprimido, baseado em metodologia desenvolvida pelo teatrólogo carioca, Augusto Boal. No final da festa, foi realizado um sorteio, tendo como prêmios cestas básicas.

PERSEGUIÇÃO NA ÍNDIA

Há anos que a violência vem aumentando consideravelmente no país; a intenção dos extremistas religiosos é que a nação seja hinduinizada.

A Índia está em 15º lugar na atual Lista Mundial da Perseguição, classificando-se como um dos países onde é mais perigoso seguir a Cristo. A violência contra os cristãos aumentou consideravelmente e a igreja tem sido alvo, principalmente, de extremistas hindus. O hinduísmo é defendido pelo governo, por isso as atividades nas igrejas são constantemente vigiadas. Há inclusive leis que proíbem os indianos de se converterem ao cristianismo

Entre os incidentes mais comuns estão: ataques às casas dos fiéis, líderes cristãos perseguidos, ameaçados, violentados e até mortos. Esses crimes estão acontecendo com mais frequência, nos últimos anos, por causa da impunidade judicial. Só no período das comemorações de Páscoa, cinco igrejas, em cinco estados diferentes, foram alvo de extremistas. Muitos cultos foram interrompidos, cristãos e líderes levados à delegacia, houve ameaças e até agressão física. Mas apesar de tantos obstáculos, a igreja continua crescendo.

 

O Massacre de Pau D’ Arco – Pará, Mais Detalhes Cruéis e Desumanos

Dermi Azevedo – Editor e Jornalista Responsável

A investigação paralela do massacre de 10 trabalhadores rurais sem terra, em   Pau D’ Arco – Pará, revelou que o crime foi premeditado e planejado com uma serie de detalhes cruéis e desumanos. Em primeiro lugar, os lavradores foram capturados um por um, sendo levados ate uma área desconhecida, onde foram submetidos a tortura e a outros maus tratos, um por um dos mortos foram trazidos em cima de um caminhão e foram jogados na área central da fazenda.

Desaparecidos
um numero incerto de trabalhadores continua desaparecido e estão sendo procurados pelas autoridades. Dos 10 mortos reconhecidos ate agora, sete pertenciam à mesma família, o comando geral do assassinato coube a um coronel da policia militar do estado do Pará. Dentro de um mês aproximadamente, os primeiros resultados deverão ser anunciados. ONGs de direitos humanos, comissões parlamentares e a policia federal, além das policias estaduais, fazem mais uma busca especifica dos desaparecidos. O local do crime foi descaracterizado.
Outros Casos
Segundo o deputado estadual Carlos Bordalo, do PT/Pa, o que houve na fazenda Santa Lucia ” não foi um confronto, mas sim uma barbárie”
Outros casos ocorridos no Pará ainda continuam sendo objeto de investigações nacionais e internacionais. São eles os assassinatos da religiosa católica, irmã Dorothy Stang que veio dos Estados Unidos para trabalhar com crianças pobres do Pará e do casal de ambientalistas José Claudio e Maria do Espirito Santo, assassinados em 2011.

Governo confirma cinco mortos em chacina no bairro da Condor, em Belém

Três vítimas morreram na hora. Dois feridos em ação criminosa morreram no hospital, quando recebiam atendimento médico.

 

A Secretaria de Segurança Pública do Pará (Segup) confirmou, na manhã desta quarta (7), a morte da quinta vítima da Chacina ocorrida no bairro da Condor, em Belém, na noite de terça-feira (6). As vítimas assistiam a um jogo de futebol em um bar quando foram abordadas por homens encapuzados, que abriram fogo.

Rodnei Vasconcelos, Sebastião Pereira e Jairo Lobato Pimental morreram na hora. Ricardo Botelho morreu no Pronto Socorro Municial da 14 de março, e Evandro Sá morreu no Pronto Socorro do Guamá. As duas vítimas receberem atendimento médico, mas não resistiram.

Quatro feridos estão internados no Hospital Metropolitano de Urgência e Emergência em Ananindeua, sendo três adultos e um menor de idade. A Segup informou que a condição de saúde deles é estável.

Outros seis feridos estão internados nas unidades do Pronto Socorro Municipal nos bairros do Umarizal e do Guamá, em Belém, mas o estado de saúde dos pacientes não foi divulgado. Os nomes das vítimas foram preservados

De acordo com a Segup, o secretário de Estado de Segurança Pública e Defesa Social, Jeannot Jansen, se reuniu com integrantes dos principais órgãos, dentre eles Polícias Militar e Civil, para discutir a investigação dos homicídios.

Os corpos das vítimas da chacina estão sendo periciados. O corpo de Ricardo Botelho já foi submetido a exames necroscópicos. Os demais ainda devem ser examinados.

ECOLOGIA E DIREITOS HUMANOS (3)

Dermi Azevedo – Editor e Jornalista Responsável

Direitos Humanos e Ecologia

A exposição aos poluentes atmosféricos provocou milhões de mortes prematuras no mundo, afirma o papa Francisco na sua carta “Laudato Sí” Entre as causas dessas mortes, está a inalação de grandes quantidades de fumaça, causada pelo aquecimento, além da acidificação do solo e da água, pelos fertilizantes, inseticidas, fungicidas, pesticidas e agrotóxicos em geral.

Resíduos

Esses diagnósticos incluem também centenas de milhões de toneladas de lixo, as maiorias das quais não biodegradáveis, sobras domesticam e comerciais, detritos de demolições, de lixo químico, eletrônico e industrial, altamente tóxicos e radioativos. “A terra, nossa casa, parece transforma-se cada vez mais em um imenso deposito de lixo”. Os produtos químicos produzem um efeito de bioacumulação nos moradores das áreas limítrofes.

O Clima

A carta diz que o mundo enfrenta um preocupante aquecimento do sistema climático há a alta concentração de gases de efeito estufa (anidrido carbônico, metano, oxido de azoto) e outros gases emitidos pelo homem, só essa situação. O aquecimento da terra influi sobre o ciclo do carbono, afetando a água potável, a energia e a produção agrícola podendo levar à extinção de parte da biodiversidade do planeta. A subida do nível do mar é extremamente grave: um quanto da população mundial vive à beira-mar e as maiorias das mega cidades situam-se em áreas costeiras. As mudanças climáticas provocam problemas ambientais sociais e econômicos, distributivos e políticos.

Migrantes

Aumenta o numero de migrantes pobres “que são forçados a migrar com grande incerteza quanto ao futuro de sua vida e de seus filhos”. Na Europa, somente de janeiro a maio de 2017 morreram 1 milhão e 300 mil migrantes apenas no mar mediterrâneo e em outras fronteiras que já foram, há milênios, uma rota da esperança e da integração entre a Europa e a África.

Água

O próximo ano será marcado pela celebração do Ano Internacional da Água. Ao analisar a situação atual do planeta, Francisco preocupa-se com o esgotamento dos recursos naturais. Chama-se a nossa atenção para o esgotamento da água no planeta, sem que se tenha resolvido o drama da pobreza. Diz que água potável é uma questão indispensável para a vida humana. O controle da água por parte de grandes empresas

mundiais transformou-se numa das principais fontes de conflitos desse século. (continua).

Dermi Azevedo: Editor

Ecologia e Direitos Humanos (2)

Dermi Azevedo – Editor e Jornalista Responsável

As Reflexões e os debates sobre a violência, hoje em dia, tendem a dar um destaque especial á relação entre o conceito de “casa comum” a violência e a luta por um meio ambiente saudável. Analisaremos hoje, de forma introdutória, as palavras chaves utilizadas pelo papa Francisco, em sua Carta Encíclica Laudato Sí sobre o cuidado da casa comum. Veremos que todo esse descuido gera a destruição progressiva do ser humano.

Casa Comum

O ser humano usa essa casa de forma irresponsável e abusiva. Pensa que é seu dono e dominador. A violência contra essa casa pode ser vista nas doenças do solo, da água, do ar, e dos seres vivos os mais atingidos são os pobres e os abandonados; a terra é oprimida e devastada; os homens e as mulheres esquecem que são parte da terra.

Crise Dramática

A atividade descontrolada do ser humano gera uma “crise dramática”. O homem e a mulher podem ser vitimas desta degradação. Lembra que a ONU adverte para o risco de uma catástrofe ecológica com a explosão da civilização industrial. Adverte que os grandes progressos científicos podem ser destruídos se não forem acompanhados por um progresso social e moral. Recorre a João Paulo II que denuncia projetos que servem apenas para fortalecer a sociedade de consumo. O meio ambiente é rapidamente devastado.

Coisa ou Sujeito?

Já Bento XVI diz que o ambiente moral também está doente; isto se deve à ideia de que a liberdade humana não tem limites. A sociedade do ter faz do ser humano uma coisa e a sociedade do ser busca considerá-lo como um objeto. Os camponeses do sul do Pará massacrados recentemente foram tratados como coisas ou como pessoas?

Dimensão Ecumênica

No aspecto ecumênico, Francisco apresenta uma síntese do pensamento do patriarca Bartolomeu da comunidade ortodoxa. Ao pedir que o planeta não seja maltratado Bartolomeu aponta a necessidade de cada um de se arrepender diante de sua contribuição pessoal para com esse processo de destruição. As soluções passam pela urgência da compreensão de que cometemos crimes cotidianos contra a natureza.

São Francisco de Assis

O santo de Assis é o exemplo máximo de uma ecologia integral, aberta para uma linguagem além das categorias cientificas e baseadas “na essência do ser humano”. Apela, em seguida, em favor do desenvolvimento sustentável e integral. “O mundo é algo mais do que um problema a resolver; é um mistério gozoso que contemplamos na alegria e no louvor”, diz o papa. Acrescenta que a família constitui um elemento central nesse processo e que os jovens exigem uma mudança e sonham com o futuro melhor.

Em casa

As rápidas mudanças na casa comum somam-se à aceleração de ritmos de vida e de trabalho. Essa rápida velocidade não se volta automaticamente para um desenvolvimento humano e sustentável. (continua).

CNDH levanta hipótese de vingança de policiais em massacre de Pau D’Arco

por Ciro Barros | 26 de maio de 2017

Para Darci Frigo, entrevistado pela Pública, mortes na Santa Lúcia podem ser retaliação à morte de segurança; é a segunda maior chacina do campo brasileiro nos últimos vinte anos

 

O presidente do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), Darci Frigo, contestou a versão apresentada pela Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (Segup) do Pará sobre a morte de dez posseiros na fazenda Santa Lúcia, em de Pau D’Arco (PA), na última quarta-feira (24). “A pergunta que a gente se faz é se não foi uma ação de vingança tendo em vista a morte do segurança da fazenda há poucos dias no local”, disse Frigo em entrevista à Pública nesta quinta-feira.

Ele se refere à morte do segurança Marcos Batista Montenegro, baleado no último dia 30 de abril quando patrulhava a fazenda ocupada. Os tiros teriam sido disparados pelos posseiros. No dia da chacina, os policiais civis e militares, liderados pela Delegacia de Conflitos Agrários (Deca) de Redenção, foram à ocupação para cumprir 16 mandados de prisão e de busca e apreensão relacionados ao assassinato do segurança. Segundo a Segup, eles teriam sido recebidos a tiros pelos posseiros. Dos dez mortos, sete eram da mesma família: o casal Jane Julia de Oliveira e Antonio Pereira Milhomem, seus três filhos e dois sobrinhos.

Familiares de nove vítimas prestaram depoimentos ao Ministério Público do Estado do Pará até a noite de ontem. Sobreviventes do massacre também estão sendo ouvidos. Relatos ouvidos por Frigo dão conta de que cerca de 150 pessoas estavam no local no momento do crime. Um deles relatou ao MP que a polícia chegou à ocupação abrindo fogo. A Polícia Civil apresentou dez armas supostamente apreendidas com os posseiros. O CNDH também deve continuar a oitiva de testemunhas nos próximos dias.

Um velório coletivo foi feito nesta madrugada no município de Redenção. Segundo relatos, os corpos chegaram do Instituto Médico Legal (IML) em estágio avançado de putrefação, o que revoltou as famílias. Para Frigo, houve destruição da cena do crime, obstrução das investigações e há risco de coação das testemunhas. O CNDH e a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC) pediram o afastamento dos policiais envolvidos nos crimes.

Os recentes episódios de violência no campo brasileiro – como a chacina de Colniza, no Mato Grosso e o ataque aos índios Gamela, no Maranhão – levaram o CNDH a criar, na última terça-feira, véspera da chacina, as missões urgentes: forças-tarefas que podem se deslocar rapidamente aos locais dos crimes e vistoriar os trabalhos de investigação. No dia seguinte, o Conselho foi surpreendido pelos assassinatos em Pau D’Arco. “Nós não imaginávamos que no dia seguinte haveria um crime tão bárbaro como esse”, diz Frigo.  “É a segunda maior chacina no campo brasileiro nos últimos vinte anos”, relata o presidente do CNDH.

De 2007 para cá, os assassinatos motivados por disputas de terras mais que dobraram, segundo dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Eles vêm crescendo continuamente desde 2013, com alta nos últimos anos: em 2016, 58 assassinatos foram registrados pela Pastoral – crescimento de 23% em relação aos casos registrados em 2015. Neste ano, já foram contabilizados 36 assassinatos por conflitos agrários, segundo a CPT.

Como foi a visita à fazenda Santa Luzia?

Foi muito problemática a visita. A perícia [da Polícia Civil paraense] foi até o local, não quis que houvesse um acompanhamento de todo mundo [da delegação do Conselho], há vários locais de crime e até o momento não se sabe como aconteceu, o que aconteceu… O resultado a gente sabe, mas como isso aconteceu a gente não sabe. Imagine você entrar numa fazenda que não tem mais gado, o capim tá um, dois, três metros de altura, e você sair andando dentro desse mato. Grande parte desse acampamento está nessas áreas de mata fechada. Você só chega lá por uma estrada de chão e só encontra alguns lugares onde você pode circular até o local. A perícia foi em alguns lugares, só que a gente acha que eles só foram parcialmente até os lugares onde aconteceram as coisas. Então foi uma coisa muito ruim do ponto de vista do que se esperava em termos de ter elementos para recolher ou pelo menos [para] entender o que aconteceu lá no local. Isso revela um pouco o que tá acontecendo aqui. A Polícia Civil e [a Polícia] Militar montaram uma linha de investigação para simplesmente encerrar o inquérito como um auto de resistência. O Ministério Público abriu um procedimento investigatório criminal; são três promotores de justiça que estão trabalhando na investigação. Nós estamos aqui também com a Polícia Federal, e o Conselho Nacional está fazendo esse processo de articulação e fiscalização para que as instituições funcionem fazendo uma investigação isenta. Eu e a Deborah Duprat [titular da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão] viemos para acompanhar. Nós criamos esse grupo de ação urgente na terça-feira em Brasília em um evento do Ministério Público Federal com duzentas pessoas de todos os movimentos do campo. Nós criamos esse grupo como reflexo da chacina de Colniza e do ataque aos Gamela no Maranhão, mas nós não imaginávamos que no dia seguinte haveria um crime tão bárbaro como esse que aconteceu aqui em Pau D’Arco.

Inicialmente, houve a informação de que a polícia teria ido até lá cumprir uma reintegração de posse. Posteriormente, a Secretaria de Segurança Pública do Pará afirmou que os policiais teriam ido até lá cumprir mandados de prisão por conta do assassinato de um segurança da fazenda. O que de fato aconteceu?

Essa ação da Polícia Civil foi, sim, para cumprir mandados de prisão e busca e apreensão. Eram mais de dez mandados judiciais [16 ao todo]. O processo está em sigilo de justiça. Agora, indo ao local, é muito difícil você imaginar como a polícia poderia cumprir aqueles mandados judiciais às sete horas da manhã, num lugar onde quem teria a capacidade de se defender em um eventual confronto seriam os trabalhadores porque eles estão no meio do mato. Eles estariam em vantagem. E isso [a reação armada dos trabalhadores] não aconteceu, não há nenhum policial ferido. Então o que aconteceu lá é uma interrogação que o Conselho se faz até o momento. Como pode ter havido um confronto onde os trabalhadores atiraram nos policiais onde você só tem feridos e mortos de um lado? Se você considerar que havia um obstáculo para se cumprir os mandados, o que é apenas um procedimento para se investigar um assassinato, você vai ver que tem algo aí que não fecha como um todo. O resultado é que a Polícia pode ter ido além nos procedimentos para cumprir esses mandados. A pergunta que a gente se faz é se não foi uma ação de vingança tendo em vista a morte do segurança da fazenda há poucos dias no local [no último dia 30 de abril, o vigilante Marcos Batista Montenegro foi assassinado a tiros quando patrulhava a fazenda Santa Lúcia; a Justiça responsabilizou os posseiros pelo crime]. Como você vai explicar tanta violência, tantas mortes?

Foram apreendidas armas no local. A imprensa falou até em um fuzil apreendido. Segundo a polícia, essas teriam sido as armas com as quais os posseiros teriam reagido ao cumprimento dos mandados. Como o senhor vê essa acusação?

Nós não vimos as armas apreendidas. Curiosamente, nos disseram que eram dez armas, o que pode indicar que a polícia reuniu uma arma para cada vítima. Pelas fotos, são armas típicas de camponeses – espingardas velhas, danificadas, pelas fotos que a gente vê. Se eles tivessem armas de grosso calibre, como se falou, eles teriam uma vantagem diferencial muito grande porque eles estavam no meio do mato. Essa tese não se sustenta até o momento pelas informações que a gente recebeu. Tem uma informação que é muito grave: há sete pessoas de uma mesma família que foram assassinadas.

Isso indica a execução dessas pessoas por conta do conflito agrário?

O Conselho ainda não tem uma conclusão sobre o que realmente ocorreu. Nós estamos até agora tentando ouvir as testemunhas. Até hoje [quinta-feira, 25 de maio], ao meio-dia, não havia nenhuma informação de que outras pessoas haviam sobrevivido ou pudessem falar. Agora há pouco nós encontramos uma testemunha hospitalizada, baleada na nádega. Ela já fez a cirurgia, deu depoimento agora há pouco para o promotor. Ela falou que só lembra que ficou baleada no local da ocupação de um dia para outro até chegar uma pessoa no local procurando e aí ele foi atendido, foi levado até o hospital. Nós soubemos que a Polícia Civil entrou no meio do caminho dessa história e foi ao hospital e disse a funcionários do hospital que eles não poderiam dar informação para ninguém sobre a existência dessa testemunha. Nós entendemos isso como uma ameaça. Como nós encontramos a ambulância no meio da estrada, soubemos por acaso que essa pessoa havia sido socorrida e aí essa primeira testemunha nós ouvimos agora há pouco. Ela falou um pouco a respeito dessa situação dos tiros, mas não conseguia dizer muito a respeito porque estava saindo da cirurgia e não tinha maiores informações. Nós estamos em busca de [mais] testemunhas. Mas nós achamos que, sim, tudo isso que aconteceu é por conta do conflito agrário ter se arrastado por muito tempo, mas pode haver um elemento de envolvimento de outros interesses como, por exemplo, empresas de segurança, já que poucos dias atrás morreu um segurança da empresa Elmo. A pergunta a ser respondida é: foi uma ação de agentes públicos realizando uma vingança privada? Essa é a pergunta que tem que ser respondida. Uma vingança por causa da morte e por causa dos interesses desse grupo latifundiário [o dono da fazenda Santa Lúcia é Honorato Babinski Filho]. Aqui na oitiva de testemunhas, uma pessoa falou que o seu marido também foi assassinado em uma das fazendas desse Honorato Babinski Filho. E essa morte continua impune.

Outra questão é a morte do policial militar Edemir Souza Costa [no dia 1o de maio passado]. Ele morreu carbonizado com outras três pessoas, incluindo o filho dele. O crime foi em Santa Maria das Barreiras, longe daqui. Bem longe. Mas esse policial era ligado a um batalhão daqui. Então, veja: esses são alguns elementos que o Conselho está levantando para poder entender o injustificável resultado da morte de dez pessoas nessa ação da Polícia Militar. É injustificável que você vá cumprir um mandado que é pra tirar a liberdade de uma pessoa ou para realizar uma parte de uma investigação criminal e você tire a vida das pessoas. Então esse caso a gente acha que pode ter relação, mas o caso da empresa Elmo a gente acha que, com certeza, tem relação [com as mortes]. A gente não sabe. Outra questão é que foram três delegados ao local. O delegado que estava coordenando a operação [Valdivino Miranda, da Delegacia de Conflitos Agrários], o pessoal falou aqui que ele já tem um histórico de violência. Nós estamos também vendo esse detalhe.

A Liga dos Camponeses Pobres (LCP) falou em 11 mortos e não dez como vem sendo noticiado. O senhor confirma essa informação?

São dez mesmo. Essa outra pessoa que se falou que teria morrido provavelmente era a testemunha que foi baleada e estava no hospital.

Qual seria a motivação de assassinar sete pessoas de uma mesma família? Por que essa família especificamente?

Se uma pessoa percebesse a aproximação dos policiais e se afastasse cinco a dez metros, os policiais não saberiam onde ela estaria. Então uma hipótese é que as vítimas foram pegas de surpresa dentro de suas casas. E, em uma delas, estaria esta família. Outra hipótese que foi levantada é que alguém que conhecia muito bem o local guiou a polícia na ação, levou pelos caminhos. Era muito difícil chegar no local. Hoje foi levantada essa hipótese de que alguém pode ter guiado a polícia e usado desse elemento surpresa [para a prática de execuções sumárias]. Essa família era o casal Jane Julia de Oliveira e o seu Antonio Pereira Milhomem, dois filhos e três sobrinhos. Pode ser que eles estivessem próximos. Essa é uma dúvida que nós queremos elucidar: por que essa família foi assassinada.

Eu tive a informação de que o Ministério Público teria sido impedido de fotografar os corpos no IML de Marabá. O senhor confirma isso?

Isso ocorreu. Houve hoje pela manhã, inclusive, uma cobrança por parte do procurador geral de Justiça do Pará sobre a Secretaria de Segurança Pública do Pará porque eles impediram que os promotores fotografassem os corpos antes da realização da perícia. Isso foi considerado uma atitude estranha, tendo em vista que, em geral, a perícia fotografa os corpos e manda para o Ministério Público para instruir as investigações.Você tem de um lado o fato que os próprios policiais que mataram removeram os corpos do local, isso é muito grave do ponto de vista de você destruir a cena do crime. A destruição da cena do crime neste caso foi muito grave porque os corpos foram retirados do local. Hoje se falou que uma pessoa poderia não estar morta, o que justificaria o socorro, mas os outros sim estavam todos mortos. Aí você vai somando: a destruição da cena do crime, depois você tem a dificuldade de fotografar os corpos do IML. São várias coisas estranhas que vão se somando. Levar os corpos significaria que não houve tanta crueldade assim, porque se tentou prestar socorro. Mas nesse caso não se justificaria porque as pessoas já estavam mortas quando foram trazidas para o hospital.

E qual será o aparato para prosseguir as investigações?

O Ministério Público estadual designou três promotores para a investigação, a Polícia Federal também está acompanhando. Mas a gente sabe que a produção da prova nesse momento fica principalmente a cargo da Polícia Civil. E na região aqui, os deslocamentos são muito longos, a Polícia Militar tem condição de chegar antes aos locais em todos os momentos. E, nesse sentido, uma das coisas que a doutora Deborah vai solicitar é o afastamento dos delegados e dos policiais que estiveram envolvidos nesse episódio para que haja a possibilidade de que a investigação seja feita e não haja nenhum tipo de obstrução das provas. Mas a informação que a gente recebeu no hospital é que a Polícia Civil pediu para os funcionários do hospital para onde foram levados os corpos para que ninguém soubesse nada a respeito da testemunha que estava lá: ou seja, eles quiseram impedir que haja uma investigação realmente isenta e por isso é necessário o afastamento daqueles que tenham interesses nos resultados da elucidação desses crimes para que esse crime não fique impune.

O segurança morto, o Marcos Batista Montenegro, era policial? A gente sabe que muitos policiais trabalham nessas empresas.

Não. A informação que eu tive era que ele era só vigilante. Mas outra coisa que costuma acontecer é que há policiais ligados à direção dessas empresas. Então outra coisa que nós pedimos à Polícia Federal foi saber sobre a situação da empresa, quem são seus donos, se ela está regular, etc. É preciso saber se ela tem relação ou não com os policiais.

No estado do Pará essa chacina só ficou atrás do Massacre de Eldorado dos Carajás, é isso mesmo?

Essa é a segunda maior chacina do Estado do Pará. É a segunda maior chacina no campo brasileiro nos últimos vinte anos.

Podem haver mais vítimas do que foi noticiado até agora?

Além da testemunha que está no hospital, podem haver outras pessoas feridas que não compareceram às oitivas ou ao hospital. Nós só vamos fazer na medida em que nós falarmos com alguma testemunha que estava no local e fugiu porque se fala de 150 trabalhadores que estavam lá. Então não é possível que não haja mais testemunhas. A gente está pedindo para que outros órgãos, como a Polícia Federal, também façam investigações paralelas. A Polícia Federal está, por enquanto, só acompanhando e garantindo a segurança da investigação. Por ora, o que há são muitas interrogações a respeito desse caso.

Há alguma outra informação que você ache importante destacar?

É importante destacar que essas situações estão acontecendo porque o processo de reforma agrária foi paralisado na medida em que o agronegócio tomou conta do Estado brasileiro. O Executivo está na mão do agronegócio, o Congresso Nacional está na mão do agronegócio. Eles paralisaram todas as políticas públicas que visavam garantir direitos de populações indígenas, quilombolas, trabalhadores rurais. Aí você tem o quadro de pressão social que tende a crescer com a crise. Sempre nos momentos de maior desemprego e crise financeira, você tem um aumento dos acampamentos de trabalhadores rurais porque as pessoas vão buscar então uma saída dentro do desemprego. Esse quadro é explosivo. E o resultado que tem sido configurado é esse quadro de chacinas, assassinatos em todo o país, mas sobretudo nessa região do “arco do fogo” da Amazônia. E isso pode piorar na região com a aprovação da MP 759 já que ela amplia a possibilidade de apropriação de terras públicas, a legalização da grilagem. Muitos desses casos vem ocorrendo em ocupações ilegais em terras públicas.

Perseguição à Teologia da Libertação baseou-se em duas fraudes, indicam pesquisas

Do blog de Mauro Lopes CAMINHO PARA CASA

Houve três razões, nenhuma delas efetivamente teológica, que moveram o combate à Teologia da Libertação no Brasil e na América Latina a partir de 1978, início do pontificado de João Paulo II e durante todo o papado de Bento XVI, até 2013 – 35 anos, portanto. O presente artigo, apesar de mencionar as três, tem foco em duas delas e apresenta pesquisas recentes segundo as quais: i) ambas basearam-se em argumentos fraudentos; ii) o governo conservador da Igreja Católica no Brasil nesse período foi um rotundo fracasso.

As três razões:

1. A primeira tem fundo político-ideológico: demonizou-se a Teologia da Libertação como se fosse uma adesão ao marxismo e/ou comunismo, enquanto os dois papas e seus apoiadores eram e são arraigadamente capitalistas e defensores do direito à propriedade e à acumulação irrestrita de riquezas. A Igreja no Brasil virou as costas aos pobres como sujeitos da ação pastoral para fazer deles, no máximo, objeto de um olhar piedoso. O artigo não se deterá sobre este assunto.

2. A segunda razão foi eclesiológica (de ecclesia, Igreja) e vincula-se ao tema do poder: os dois papas, João Paulo II e Bento, a Cúria romana e a maioria da hierarquia católica no Brasil e América Latina consideram os leigos (pessoas que não são ordenadas sacerdotes) cidadãos de segunda categoria na Igreja. Defendem que a autoridade e o poder devem concentrar-se integralmente nas mãos da hierarquia. Para eles, todo o poder emana do clero e em seu nome será exercido –para implementar essa visão, amealharam apoio entre em sem número de leigos temerosos e oportunistas. É o que se chama clericalismo. As experiências das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e dos conselhos de leigos nas paróquias horrorizaram os conservadores, que as desarticularam. Para os defensores do clericalismo, uma Igreja circular, não hierárquica, romperia “o mistério”, tornando-a secular, banal, pois as pessoas comuns demandariam ritos de conotação mágica e subserviência à autoridade. Para os conservadores, a solução seria a obediência irrestrita dos leigos à hierarquia e investimentos que garantissem ordenação de mais padres e a abertura novas paróquias. A estratégia mostrou-se equivocada, como você verá nas pesquisas, mas serviu para concentrar o poder da Igreja nas mãos dos hierarcas.

3. A terceira motivação para a campanha de ódio e aniquilamento contra a Teologia da Libertação foi pragmática: os conservadores alegavam à época (segunda metade dos anos 1970) que os princípios, opções litúrgicas e prática pastoral de leigos, padres e teólogos vinculados de alguma maneira a esta corrente estavam afugentando os fiéis e esvaziando as igrejas.

O combate à Teologia da Libertação traduziu-se numa campanha sistemática de perseguição a cardeais, bispos, padres, freiras, teólogos e ativistas leigos nas paróquias e comunidades promovidas por Roma, com iniciativas similares da hierarquia local (veja, sobre isso, esclarecedora entrevista do padre Paulo Sérgio Bezerra ao blog, aqui). Vários gestos de João Paulo II e Bento XVI indicaram os novos rumos da Igreja, na contramão do Vaticano II, e autorizaram as campanhas. Alguns deles: os processos e punições nos anos 1980 e 1990 Leonardo Boff da Congregação para a Doutrina da Fé, dirigida por Joseph Ratzinger, a divisão da Arquidiocese de São Paulo, em 1989, com o objetivo de enfraquecer dom Paulo Evaristo Arns, a repreensão pública ao padre Ernesto Cardenal, aliado dos sandinistas na Nicarágua, por João Paulo II, em 1983; as seguidas repreensões ao arcebispo de San Salvador, dom Oscar Romero, sinalizando ao clero ultraconservador e aos militares do país que estava desautorizado pelo Papa, num claro sinal verde à campanha contra ele, até o assassinato por paramilitares durante a celebração da missa, em 1980.

Como se deu o governo da Igreja no Brasil nesses 35 anos? O primeiro passo foi o rompimento dos os moderados, pressionados por Roma e por seu desejo de fazer carreira na instituição, com os progressistas ligados de alguma forma à Teologia da Libertação.  O segundo foi a composição de uma nova aliança dos moderados com dois segmentos: os conservadores “tradicionalistas” e a corrente “carismática”, os neopentecostais da Igreja Católica (cujas expressões mais barulhentas foram a Renovação Carismática Católica e a Canção Nova).  Hoje é possível constatar que os restauracionistas, como qualifica o Papa Francisco (aqui), inimigos abertos ou velados do Concílio Vaticano II, campo que reúne tanto conservadores como carismáticos, vivenciam os primeiros sinais da crise de sua hegemonia de 35 anos, com a primavera em Roma.

Com a primavera, salta aos olhos o fracasso retumbante do governo de mais de três décadas: 1) a perda de fiéis católicos tornou-se uma torrente e 2) a Igreja deixou de ser protagonista, tornando-se mero objeto decorativo no sistema de dominação dos ricos do continente –mesmo em sua função de controle social/moral dos pobres, os conservadores viram sua influência ser transferida em boa medida para as correntes neopentecostais protestantes, das quais o pentecostalismo católico (os “carismáticos”) é uma cópia mal acabada.

 

O que aconteceu durante os 35 anos de hegemonia conservadora/carismática?

 

1. Quanto ao número de católicos no Brasil, uma sangria sem precedentes.

 

 

Veja a evolução do número de católicos no país desde 1872[1]:

Há um processo de redução da presença católica no país constatada pelas pesquisas desde fins do século 19. Ela apresenta uma pequena aceleração ao longo dos anos 1970 que se torna uma curva acentuada a partir da instalação do ciclo conservador/carismático: o percentual de católicos declarados nos censos despenca a uma velocidade brutal a partir dos anos 1980, caindo de 88,96% para 68,43% ao final da primeira década do século 21.

No ritmo atual, estima-se que num prazo entre 10 anos (DataFolha) e 20 anos (IBGE) o número de católicos será superado em pelo de evangélicos no Brasil, conforme as projeções realizadas por José Eustáquio Diniz Alves no portal EcoDebateaqui e aqui.

A grande aposta da aliança moderada/conservadora/carismática de que o pentecostalismo católico seria barreira para a perda de fiéis mostrou-se uma ilusão. Conforme anota Paulo Fernando Carneiro de Andrade, a “estratégia pastoral de incentivar grupos carismáticos e os padres cantores com a espetacularização da fé em detrimento das Comunidades Eclesiais de Base não parece ter tido o sucesso esperado”. O pentecostalismo católico, cópia mal acabada daquele de origem protestante (por motivos que não cumpre desenvolver aqui) instalou uma “porta giratória” no catolicismo pela qual muitos saem e poucos retornam, pois, ao fim e ao cabo, “acabou por reforçar o conteúdo de verdade religiosa que se possa atribuir aos pentecostalismos evangélicos”.

Por isso, há uma constatação que se torna imperativa e tem sido escamoteada pela Igreja no Brasil: “os dados do Censo não permitem que se continue a sustentar uma acusação comum em muitos ambientes na década de 1980 de que teria sido a pastoral das Comunidades Eclesiais de Base e dos grupos de reflexão bíblico a responsável pela diminuição relativa dos católicos e aumento dos evangélicos”.[2]

2. O clericalismo como estratégia fracassada

Ao combater a descentralização do poder na Igreja e o protagonismo dos leigos e leigas, com destaque para o combate à liderança feminina, a aliança entre moderados, conservadores e carismáticos construiu um discurso segundo o qual o crescimento da Igreja institucional teria como consequência direta o incremento no número de católicos. Dito de outro modo: para eles, a falta de padres e paróquias seria responsável pelas dificuldades de enraizamento dos católicos.

Portanto, tratar-se-ia de implementar um projeto de criação de paróquias e ordenação de padres em larga escala para ampliar o número de católicos. A tese revelou-se um fiasco, pois a crise do catolicismo no país não é institucional, mas cultural: as pessoas olham para cardeais e bispos encastelados nas arquidioceses e padres nas paróquias e não enxergam verdade, autenticidade. Quem tem afirmado isto seguidamente é ninguém menos que o Papa Francisco.

Ao cruzarem os dados do Censo 2010 do IBGE com pesquisas do Centro de Estatística Religiosa e Investigação Social (Ceris), Carlos Alberto Steli e Rodrigo Toniol constataram que nas mais de três décadas de hegemonia conservadora à sangria de fiéis correspondeu um aumento ímpar da estrutura clerical (sacerdotes, diáconos e paróquias). Veja o quadro: é significativo que apenas uma dimensão do perfil eclesial no Brasil tenha encolhido, o de mulheres religiosas (freiras e monjas), que compuseram a linha de frente da Teologia da Libertação na base da Igreja e foram alvo dos ataques machistas e misóginos típicos do clericalismo[3].

O crescimento da estrutura clerical no país não se deu apenas em números absolutos. Há um enorme salto na proporção sacerdotes por habitante. Enquanto em 1980 –início da ofensiva conservadora- havia 8.347 fiéis para cada sacerdote, este número passou para 5.570 em 2010!

Portanto, enquanto a Igreja no Brasil virou as costas aos pobres, ordenou mais padres e responsabilizou a Teologia da Libertação pela perda de fiéis, o que se assistiu foi uma sangria sem precedentes na história. Até agora não houve qualquer movimento explícito de reflexão sobre esta questão crucial por parte da hierarquia católica no Brasil. O que tem acontecido, em parte por conta do fiasco, em parte pela liderança do Papa Francisco, é um estremecimento da aliança entre os moderados, que comandam a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e os grupos conservadores e carismáticos. Há sinais, ainda tímidos, de uma reconstrução da aliança entre os moderados e os progressistas, herdeiros da Teologia da Libertação.

[Mauro Lopes]

Comissão apura detalhes da chacina no Pará

Uma comissão integrada por quatro deputados federais esta apurando detalhes do massacre de dez trabalhadores rurais sem terra ocorrido em 24 de m, além de por policiais civis e por policiais militares. A Comissão é integrada pelos deputados Edmílson Rodrigues,do PSOL; delegado Éder Mauro, do   PSD. Beto Salame, do PP e de Elcione Barbalho do PMDB.

Mesma família

Entre os 10 mortos 7 eram membros da mesma família; lista de vítimas. Inclui-se a presidente a presidente da Associação dos Trabalhadores Rurais, do local Jane Júlia de Oliveira e seu marido Antonio Pereira.

Cracolândias: ficção e realidade

Dermi Azevedo – Editor e Jornalista Responsável

Uma cena comum em praticamente todas as regiões paulistanas: o porteiro abre o edifício em que trabalha e encontra um homem sujo e mal vestido que está com fome; a religiosa faz a mesma coisa em seu convento e se encontra com uma mulher desesperada e sem nenhuma ideia do que vai fazer na vida; o guarda de segurança aponta o seu revolver para um jovem que acaba de cair no portão da empresa em que trabalha…

Esses cinco personagens representam, não cenas teatrais, nem trechos de livros de ficção, mas, seres reais e concretos. São as vítimas do grande drama do narcotráfico que é a praga dominante, desde os anos 90, em São Paulo. Esses homens e mulheres acabam de perder a sua principal referência de espaço e de tempo. As cracolândias. Esses agrupamentos urbanos fogem de qualquer definição antropológica ou geohumana. Até hoje as ciências sociais só foram capazes de registrar a conversa dos cientistas com os moradores desses trechos de ruas e de calçadas maltratados pelo tempo.

Cada Prefeito ou Prefeita eleito de São Paulo tenta implementar políticas que nos primeiros dias dão algum resultado na resocialização dessas pessoas. O atual Prefeito João Dória optou por uma política repressiva nesta área e o que mais se vê são centenas de guardas municipais e policiais militares que executam ordens de seus comandantes e que não hesitam em bater nas pessoas dependentes de drogas, tudo parece surreal… Não há propriamente vivos e mortos. O que existe são personagens que vagueiam no tempo e no espaço, em busca de um sentido para a vida. Em determinado momento, confunde-se, na mesma panela de pressão o criminoso traficante, o submisso consumidor de drogas, o miserável dos miseráveis. Lembro a figura do homo sacer (homem sagrado) aquele homem que vivia completamente totalmente abandonado nas ruas de Roma como registra o filósofo Italiano Giorgio Agamben. Interrompo este artigo porque estão batendo a minha porta no Pará, em busca de socorro.

Uma publicação dos leigos e das leigas da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil – Ano 1 número 2