Cracolândias: ficção e realidade

Dermi Azevedo – Editor e Jornalista Responsável

Uma cena comum em praticamente todas as regiões paulistanas: o porteiro abre o edifício em que trabalha e encontra um homem sujo e mal vestido que está com fome; a religiosa faz a mesma coisa em seu convento e se encontra com uma mulher desesperada e sem nenhuma ideia do que vai fazer na vida; o guarda de segurança aponta o seu revolver para um jovem que acaba de cair no portão da empresa em que trabalha…

Esses cinco personagens representam, não cenas teatrais, nem trechos de livros de ficção, mas, seres reais e concretos. São as vítimas do grande drama do narcotráfico que é a praga dominante, desde os anos 90, em São Paulo. Esses homens e mulheres acabam de perder a sua principal referência de espaço e de tempo. As cracolândias. Esses agrupamentos urbanos fogem de qualquer definição antropológica ou geohumana. Até hoje as ciências sociais só foram capazes de registrar a conversa dos cientistas com os moradores desses trechos de ruas e de calçadas maltratados pelo tempo.

Cada Prefeito ou Prefeita eleito de São Paulo tenta implementar políticas que nos primeiros dias dão algum resultado na resocialização dessas pessoas. O atual Prefeito João Dória optou por uma política repressiva nesta área e o que mais se vê são centenas de guardas municipais e policiais militares que executam ordens de seus comandantes e que não hesitam em bater nas pessoas dependentes de drogas, tudo parece surreal… Não há propriamente vivos e mortos. O que existe são personagens que vagueiam no tempo e no espaço, em busca de um sentido para a vida. Em determinado momento, confunde-se, na mesma panela de pressão o criminoso traficante, o submisso consumidor de drogas, o miserável dos miseráveis. Lembro a figura do homo sacer (homem sagrado) aquele homem que vivia completamente totalmente abandonado nas ruas de Roma como registra o filósofo Italiano Giorgio Agamben. Interrompo este artigo porque estão batendo a minha porta no Pará, em busca de socorro.

Uma publicação dos leigos e das leigas da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil – Ano 1 número 2

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