O SANGUE QUE NÃO PARA DE JORRAR. ATÉ QUANDO, SENHOR? 

Em pleno auge da violência contra os trabalhadores rurais e contra as suas lideranças e movimentos, mais um massacre é acrescentado à longa lista das vítimas do latifúndio. Como relata a CPT (Comissão Pastoral da Terra), em um minucioso e dramático relatório,  divulgado ontem, 10 camponeses foram assassinados a sangue frio, no município paraense de Pau D’arco por jagunços e por policiais do Estado paraense. O sangue voltou a jorrar copiosamente no solo brasileiro como vem acontecendo desde 1500, quando começou oficialmente o processo colonizador no Brasil. As características evidentemente mudaram, mas a essência continua a mesma: um Estado que dá prioridade absoluta ao capital e que ajuda uma casta de latifundiários vorazes e sanguinários a eliminar o grito dos camponeses.

 

Podemos e devemos refletir sobre o significado desse acontecimento tanto para sociedade como um todo, quanto para os cristãos em particular. Ninguém duvide que entre os assassinos, os mandantes e os apoiadores alguns vão às missas e aos cultos dominicais e não ligam o seu crime com a sua presumida fé; ninguém duvide também que os 10 camponeses estivessem na luta senão em nome de um mundo novo e de uma nova humanidade redimida pelo sangue de Jesus Cristo. Nessas horas é que devemos lembrar o que o Papa Francisco afirmou, há poucos dias: “é melhor ser ateu do que católico hipócrita”. No plano mais amplo, fala-se muito dos crimes financeiros, que ocupam os corações e mentes da população brasileira, mas cala-se diante da violência que mata milhares de pessoas na cidade e no campo. Contra os jovens negros de periferia, contra as mulheres, contra os LGBTs, contra os que vivem em situação de rua, contra os que lutam por moradia ou por um pedaço de terra para plantar, essa violência ceifa vidas, mas parece que não existe somente porque não aparece no Jornal Nacional ou em qualquer outro informativo da mídia tradicional.
Nós, cristãos, não podemos aceitar passivamente mais esse massacre. Não podemos cair na tentação de ver mais uma chacina acontecer, e não fazer nada diante da perspectiva da impunidade. Pelo menos temos que denunciá-la e afirmar que não concordamos. Por saber que esse massacre integra-se ao processo de aperfeiçoamento da ideologia que criminaliza os movimentos sociais, temos que dar testemunho profético de fé na justiça, na misericórdia e na força de Deus. Nossa certeza é que Deus escuta atentamente o clamor do seu povo e nossa esperança é que, como no sonho de Mardoqueu, “ao clamor do povo brote, como de uma pequena fonte, um grande rio de águas caudalosas” (Ester 1), e que luta pela justiça ganhe espaços e os oprimidos da terra recuperem a esperança de viver.

 

Que a violência seja superada, que possamos construir a paz e a justiça para todos e que nenhum crime fique impune em nossa terra!

São Paulo, 25 de maio de 2017

Dom Flávio Irala

Dermi Azevedo

Nello Augusto Pulcinelli

Elis Regina Azevedo

Comissão de Diaconia e Incidência Pública (DASP/IEAB)

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